quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Legião

Chegando de Brasília, eles vieram com um som muito cru e cheio de sintonia com o hoje.


Os acordes eram básicos e naturais. Os arranjos deixavam a desejar e a harmonização era desnecessária.


A Legião foi uma banda de movimentos poéticos e solitários. O rock brasileiro já tinha a consistência de um Barão Vermelho e as experiências de Vímana e Terço.


Faltava apenas identidade.



Com um som de garagem e pobre de recursos (pelo menos até o disco "O Descobrimento do Brasil"), Renato, Marcelo e Dado povoaram as noites e o imaginário de jovens new-wavers que balançavam muito a cabeça e ouviam muito pouca música.


Renato era a alma e a voz; Dado a estrutura e Bonfá os rascunhos.


De Legião I a "Quatro Estações" houve uma evolução musical grande e uma deterioração comportamental suja.


Paciência.



Recomendo "Perfeição" uma faixa-poema que precisava ser escrita.



GM

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Antes do meu remédio

Antes de ouvir Beatles eu não passava de um punhado de moléculas. Depois, me agrupei.
Antes de ouvir Little Feat eu era meio cego dos ouvidos. Depois, me completei.
Antes de ouvir Caetano eu era como um pequeno carrapato. Depois me ajustei.
Antes de ouvir Ray Charles eu era como um amorfo largado num canto qualquer. Depois, me estruturei.
Antes de ouvir Tim Maia eu era um incompleto viajante. Depois, me orientei.
Antes de ouvir Stones eu era uma pedra bruta juvenil. Depois, me arredondei.

Antes de ouvir Louis Armstrong era como se eu fosse um pobre diabo. Depois, me exorcizei.

Antes de ouvir Raul de Sousa eu era indiferente. Depois, me reparei.


Antes de ouvir Paul Simon eu era um errante caminhando. Depois, me aprumei.

Antes de ouvir Chico era como se eu fosse uma resma de folhas soltas. Depois, me encadernei.

Antes de ouvir Sinatra eu era tão pequeno. Depois, me agigantei.

Antes de ouvir Bob Dylan eu era um pequeno e massante burguês. Depois, me retoquei.

Antes de ouvir Tom Jobim eu era com uma poça fria na estrada. Depois, me enxuguei.

Antes de ouvir Julie London eu era um idiota egocêntrico. Depois, me apaixonei.

Antes de ouvir Djavan minha cabeça era de pedra. Depois, me arejei.

Antes de ouvir Stan Getz minhas mãos tremiam. Depois, me acalmei.

Antes de ouvir Doors minhas pernas eram curtas. Depois, me estiquei.

Antes de ouvir Marisa Monte eu era um pobre bitolado. Depois, me espalhei.


Antes de ouvir Nina Simone eu era uma pequena lesma febril. Depois, me superei.

Antes de ouvir Tony Bennet, Elis Regina, Aretha Franklin, Edu Lobo, Etta James, SuperTramp, Eric Clapton, Renaissance, Elvis, Luiz Gonzaga e Miles Davis eu não passava de um certo volume de pus, escárnio, fracasso, medo, covardia e egoísmo...depois, eu me curei.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A santíssima trindade da política brasileira

Esse tema é complexo.
Pode ter muitas combinações. Verdade. Tudo se combina.
Hoje assisti ao Filme "Estômago", produção brasileira e italiana que teve marcante atuação do jovem ator João Miguel. O filme é soberbo. Uma ode a gastronomia e a vida atrás das grades.
Uma direção segura do cineasta Marcos Jorge, revela uma linguagem dura e poética, entre peitos e bundas. Mais peitos do que bundas.
Revela também a realidade e a dureza da vida de quem migra para uma metrópole, só com a coragem e a alma.

Vendo o filme aprendi muitas misturas novas.
Aprendi que a sobremesa Romeu & Julieta se torna Anita & Garibaldi, quando você troca o queijo Minas por gorgonzola.
Aprendi que angustura serve também para destilar um bom rabo-de-galo. Coisas da cadeia.
Tudo bem. Em política também se mistura.
A mistura mais atual é também a mais ridícula. Revela a santíssima trindade da política brasileira.
O ex-boxer Maguila, faz às vezes de chocolate. O palhaço Tiririca seria o caju, um tanto quanto azedado e a Mulher-Pêra, por favor não ria, seria a fruta da estação.
Vejamos então, chocolate + caju + fruta-da-vez = Brasil, aquele que Charles de Gaulle disse que não era sério, 50 anos atrás.

Maguila, Tiririca e Mulher-Pêra...socorro !!! Socorro !!! Socorro !!!

Prefiro a Maria-Louca !

Coisas da cadeia...

GM

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um fim-de-semana perfeito no Rio

Começa com um chopp descontraído, sexta à noite, num boteco qualquer do baixo Tijuca; depois vira-se à direita com destino ao gigante Mário Filho, e lá deixa-se a emoção tomar conta das lembranças dos gols inesquecíveis de seu time.
Segue-se em frente rumo ao Mirante do Leblon. Lá, com a descontração necessária que uma porção de pescada frita pede, deixe-se levar nas ondas de uma cerveja bem gelada e do barulhinho bom do quebra-mar.
Continue. Visite amigos e faça um bom churrasco, mas não se esqueça de que a noite do Rio pertence a Lapa, e lá tudo é quarenta graus.

Se tiver fôlego, na manhã seguinte vá a trilha Cláudio Coutinho, volte a ser criança no convívio de macaquinhos e cardeais e descubra amoras pelo caminho.
Com tranquilidade vá até o Leblon, pare no posto 9 e coma uma porçãozinha de camarão assado no quiosque do Cyrillo. Ele vai estar de bom humor. O camarão também.
Quando o cansaço bater, se bater, siga destino rumo ao forte Copacabana. Lá, beba devagarinho um expresso justo na Confeitaria Colombo e se encante com a vista incrível da enseada de Copacabana, com seus contrastes sociais.
Se chover vá ao shopping Leblon, a feijoada do Botequim Informal é carioca, e da gema.
Se não chover delire, o Rio é todo seu.
Quando a fome apertar o Porcão te recebe e te abraça com o Pão de Açúcar e a Bahia de Guanabara ao redor.
E se você for de samba, o Barril 8000 da Barra te convida a um partido certeiro com Arlindo Cruz. A música é de primeira, o ambiente fica pra depois.
Acorde com sono. Tome um bom café e volte pra São Paulo, de olho no calendário e fazendo planos pra quando voltar.
O Rio é assim, quem prova volta.

GM

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O cinema dos anos 80

Assistia tranquilo ontem à noite ao filme "De Volta Para o Futuro III", produzido pelo Spielberg e dirigido pelo Zemecks. Meu filho deitava preguiçosamente a cabeça na minha perna e minha mulher, por perto, completava a cena.
No meio da fita, bem antes do duelo entre McFly e Beef Tanen, meu filho me surpreendeu com uma daquelas tiradas curtas, que só a crueldade inocente das crianças é capaz. Me perguntou num só fôlego quais os melhores filmes que assisti na minha juventude.
Seria impossível listar. Nem tentem fazer isso em casa, até por que, definir o que é um filme "bom" ou "melhor" , por si, é um desafio impensável.
O filme é bom se assim lhe parece.
Mesmo assim o danadinho insistiu e acabei listando não os melhores, mas sim um compilado daqueles que tiveram alguma importância para mim. Veja abaixo os 05 primeiros:
1. Bruce Lee e o Vôo do Dragão - Assisti provavelmente em 1977, na companhia de meu irmão, numa matiné dupla qualquer do Cine São Gerônimo (que virou supermercado e depois igreja), em Mesquita/RJ. É a lembrança mais antiga que tenho em termos de cinema. A cena de Bruce com Chuck Norris duelando no Coliseu de Roma é a mais importante cena de luta da história do cinema. Impagável.
2. Grease (Nos Tempos da Brilhantina) - Outro clássico que teve uma péssima tradução. Trata-se da adpatação para o cinema do musical da Broadway chamado Grease (e apenas). Tinha Travolta e Olívia Newton-John no elenco. Assisti em 1979 com a turma da rua Cordura, no Cine Verde de Nova Iguaçu. A cena que mais lembro é a cantoria no campo de futebol (Tell me more...).
3. O Feitiço de Áquila - Para quem quiser uma amostra do que é uma bela mulher, veja Michelle Pfeifer neste filme. Uma delícia. Assisti com minha irmã no Cine Méier em 1985.
4. Os Goonies - A trilha de Cindy Lauper era melhor que o filme, mesmo assim foi marcante. Aventura de um grupo de amigos que se arriscam num mundo de duendes e fadas. Assisti no saudoso ano de 1986.
5. Karate Kid - Era 1984. Um filme que marcou muito mais pela boa exposição de virtudes do que pela produção. Um clássico. Pat Morita roubou a cena. Belíssimo filme.
Prometo falar ainda de outros como, A Lagoa Azul, Um Tira da Pesada, Conta Comigo, vamos aos poucos, enquanto a pipoca estoura na panela.

GM

domingo, 29 de agosto de 2010

Blood, Sweat & Tears

Já escrevi nas estradas deste blog um artigo sobre certos endereços que conheço, ótimos para a obtenção de raridades em termos de boa música.
CD, vinil, K-7...não importa, me lembro no mínimo de ter dado duas boas dicas, que certamente valeriam a pena investir.
A lista completa seria grande, iria desde a centenária Elizart no RJ, rainha de livros e discos usados, até a Brunetti de Blumenau, ótimo ponto para CD´s e DVD´s; passando pela Vinil Sempre de Porto Alegre, pela Baratos & Afins de SP e outras tantas...muita coisa boa.
Esta semana que passei trabalhando em Blumenau, fui visitar à noite uma das mais recentes fontes de preciosidades que conheci, a Book Center, que fica bem próxima ao Shopping Neumart, no centro.

Me surpreendi com um gigantesco e muito bem organizado acervo de discos de vinil, talvez mais de 3.000 peças, enfileiradas em prateleiras por ordem alfabética e de autor.
Comecei pacientemente minha busca. Senti falta de um bom tinto para me acompanhar. Avancei com sede pela seção de MPB e de cara arrebatei "Pássaro da Manhã" da Bethania...raridade.
Passei para a seção de jazz e afins. Olhava um-a-um todos os discos com suas capas e ia separando os que me interessavam. Meio distraído, olhei de lado um disco de capa meio escurecida que me chamava.

Era uma coletânea do Blood, Sweat & Tears. Clássica. Continha as duas fases da banda, a primeira com os vocais de Al Kooper e a segunda já com o infernal Clayton-Thomas na cantoria.
Eu conhecia o trabalho da banda, só que de longe. Não tenho nenhum CD deles e nem um outro material. Estranhei eles estarem alí na seção de jazz (apesar de terem sido fundadores do "fusion" e do "jazz-rock" em 1967); eu pessoalmente detesto coletâneas. São como fotos de sorriso forçado, só mostra o lado "A" de cada trabalho.

Definitivamente não sou um caça hits.

Trouxe comigo para Itu, uns 40 discos excelentes e logo em casa comecei a limpar e recuperar as capas, enquanto ouvia e bebia.

As vezes vice-versa.

Quando estava com o disco do Blood nas mãos, percebi um detalhe curioso: uma pequena etiqueta de preço e código de produto, indicava o nome da loja que havia vendido o exemplar pela primeira vez. O ano marcado era 1989. A etiqueta trazia a marcação "Brunetti" de Blumenau, a mesma loja que hoje me fornece muito material bom e de primeira qualidade.
Tirei uma foto da pequena e antiga etiqueta. Da próxima vez que voltar a Blumenau vou surpreender a turma da loja com esta lembrança.
Mas falando do Blood...não é nada parecido com o rock cru e acústico que estava acostumado. O som tem muita qualidade. São músicos de verdade. Os arranjos são difíceis e a execução é perfeita.
O som é forte, intenso e bonito. Ali dentro tem Ray Charles, James Brown, Miles Davis e Sam Cooke.

Ouvi até a última gota.

A faixa "Child is Father to the Man" é uma cria de luz. Incrível vir de uma banda de rock.
Dizem que o nome da banda é uma alusão a um disco do Johnny Cash, ou a um discurso de Churchill após o sucesso do desembarque dos aliados na Normandia. Ele teria dito que a vitória aliada foi com "...sangue, suor e lágrimas...".

Confesso que não precisei de nada disso para ouvir o disco por duas horas seguidas.

GM

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Paulinho da Viola

Quando ele surgiu, foi como uma renovação no samba e na MPB de então. Final dos sessenta, início dos 70. Acompanhado de gente do quilate de Martinho da Vila e João Nogueira, começou a escrever uma história e um samba diferente.

No trabalho dele a base rítmica passaria, então, a um papel secundário, sem deixar de ser importante, e as harmonias ganhariam a vez, na voz afinada e de veludo de Paulinho.

Ficaram para trás os dias de conhaque e coadjuvância do ZiCartola, bar que o lançou, assim como a outros tantos.

Ontem à noite tirei a poeira do vinil entitulado "Paulinho da Viola", prensado pela Odeon em 1975 e que trazia na capa, contra-capa e encarte, desenhos e grafites de Elifas Andreato, nada mais, nada menos.

O belo disco começa com "E a Vida Continua" abrindo a lado "A" e fecha o lado "B" com "Deixa Rolar", do saudoso Sidney Miller.
Um disco de samba. Um disco perfeito.
Na parte interna do encarte, há a reprodução de um bilhete, na própria grafia da letra de mão do Paulinho, destinado a Milton Miranda, diretor artístico do projeto:
"Milton, a idéia é essa aí. O disco fala de coisas da natureza, da vida das pessoas simples e das transas do amor (infinitas jornadas de amar e viver...). Eu gostaria que ele começasse e acabasse com as músicas indicadas.
Não sei, vê se dá. Depois eu te telefono.
Um abraço do irmão, Paulinho."

É isso mesmo, o disco é um abraço, de Paulinho da Viola.

GM