Tudo bem, eu nasci em 1968.
Num quase distante 07 de setembro, na Gambôa, bairro do Rio antigo, perto da zona portuária e da Pedra do Sal, berço do samba.
Mas qual...não é nada disso o motivo deste post. Não é saudosismo e sequer é uma bobagem autobiográfica qualquer (desculpe, Fiuk...!).
Trata-se da trilogia 1968. Uma trilogia diferente, pois foi escrita em épocas diferentes e por escritores diferentes.
Começo pelo clássico "1968: o ano que não terminou", do Zuenir Ventura. Uma abordagem corajosa sobre a mudança da percepção e do comportamento humano, no limiar dos anos 60 e no auge da repressão.
Praticamente a invenção do pop, nas letras brasileiras.
Passo para "1968: o ano que abalou o mundo" do Mark Kurlansky. Um retrato fiel das mudanças políticas e geo-econômicas, que tiveram início com o advento da "primavera de Praga".
A 1ª revolução jovem do mundo.
Finalizo com "1968: eles só queriam mudar o mundo" assinado por Zappa & Soto. Uma narrativa muito gostosa das mudanças que a música e o cinema legaram aos jovens que tinham espaço na cabeça para qualquer coisa, além de LSD.
Recomendo os três para leitura.
Para acompanhamento, abra um bom e jovem Merlot, acrescido de porções generosas de um bom queijo da Serra da Estrela.
Para deleite dos ouvidos, espete um bom vinil dos Beatles, de preferência "Sgt. Pepper's".
Relaxe na poltrona e deixe rolar...é melhor do que qualquer coisa !
Boa leitura !
GM
quarta-feira, 4 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
Vinicius de Moraes

Marcus Vinícius da Cruz de Melo Moraes.
Vinícius de Moraes.
Poeta, poetinha camarada.
Vinícius é a poesia viva que feita em música por Tom, Toquinho, Baden, Chico entre outros poucos afortunados, fez melhor e mais humana, a vida daqueles que tiveram a sorte de lhe ouvir.
Ele era meio alquímico. Transformava uma tarde qualquer, num pé-sujo em Ipanema, numa poesia romântica, digna das notas de um Tom ou de um Bach.
Vivia de bar em bar, buscando os melhore tons para sua poesia.
De olho em musas como a então menina Leila Diniz, escreveu declarações de amor a todas as mulheres, e nos braços de muitas se realizou.
A discografia é imensa e não é meu objetivo aqui falar disso. Se alguém quiser matar a saudade do poeta-canção, recomendo ouvir "Chega de Saudade"...minha aliteração foi mero acaso...juro !
Minha proposta aqui é relembrar uma estória engraçada de nosso Vinícius, diplomata cassado por generais de pijama, teimoso em sua escolha pela boemia e pelas mulheres bonitas.
Diz a lenda que certa noite, na casa da Gávea, estavam Tom, Vinícius e Chico bebendo, muito, whiskey do bom e gargalhando alto às escolhas que cada um fez na vida.
Em dado momento Chico teria perguntado, meio que na galhofa, sorrindo bonito e com ar de cachaça, a Vinícius o que ele faria se tivesse uma segunda chance nesta terra, uma chance para recomeçar do zero.
Teria então respondido Vinícius:
"Amigo Chico, se eu morrer amanhã e Deus achar por bem me mandar de volta, pediria a Ele para que as coisas fossem exatamente como foram até agora...e que Ele me mandasse de volta exatamente do jeito que sou...apenas com uma pequena diferença: me faria um homem com um pau um pouquinho maior..."
Todos explodiram em gozo e gargalhadas. Abraçaram-se forte. Os três.
Vinícius foi-se meses depois disso, deixando a MPB orfã de poesia e o Brasil mais seco de bom humor.
O espaço que ele deixou ainda não foi preenchido. Talvel não o seja.
Um brinde ao poeta !
GM
segunda-feira, 2 de maio de 2011
O que Boca Livre e Hank Willians tem em comum ?

O que o incrível e finito grupo de MPB "Boca Livre" tem em comum com o pai do "country & western", Hank Willians, falecido há muitas décadas ?
Muitas coisas.
"Jambalaya on the Bayou", canção seminal do "C & W", seria uma das respostas.
"João Balaio", deliciosa versão de João Bosco, gravada pelo "Boca Livre" no disco antológico, zerado e fora de catálogo "Boca Livre em Concerto", de 1989, seria certamente outra resposta válida.
Mas acredito que CORAGEM seria a opção mais justa.
Hank Willians teve a coragem de fundir, em 1938, elementos do country com rudimentos do gospel para germinar, contra tudo e contra todos, o distante rock'abilly.
"Boca Livre" ousou contra a censura dos anos de chumbo, gravou e fez shows sob ameaças do DOI-CODI e revolucionou a estética musical brasileira de 1978 até a primeira metade dos anos 80.
Com sua formação original (Maurício Maestro, Zé Renato, Cláudio Nucci e David Tygel) influenciou gente do quilate de "Cor do Som", "Quinteto Violado" e "Raíces de América".
Seguiu em frente compondo verdadeiras obras de arte e vendendo muito pouco, infelizmente.
O grupo acabou em 1995, após gravar com a banda de rock progressivo "Yes" e de lançar dois discos no mercado americano, muito bem aceitos pela crítica.
Uma irreparável perda num cenário musical cada vez mais pobre, cada vez mais vazio, cada vez mais pop, cada vez mais Lady e cada vez mais Gagá (com acento no último "a").
Se vc deseja realmente evoluir de um punhado de moléculas conscientes para uma forma mais astral, ouça, pelo menos, uma música do "Boca Livre".
Recomendo.
GM
quarta-feira, 27 de abril de 2011
O Garoto de Liverpool

Assistimos ao filme "O Garoto de Liverpool" (tradução confusa para o original "Nowhere Boy"), dirigido pelas mãos obscuras e competentes de Sam Taylor-Wood.
Esta cinebiografia de Lennon, na verdade, deixou muito a desejar.
O elenco, à exceção de Kristin Scott Thomas, é pálido demais para a complexidade do tema.
O fita é de 2009, mas só agora consegui uma cópia decente.
Assistimos com uma ansiedade natural de quem admira a música de Lennon e de Lennon-McCartney, mas nos decepcionamos muito.
A estória é muito contida e reflete apenas alguns fragmentos da mocidade de Lennon: uma infância perdida e costurada por crises familiares, perdas, egoísmo, narcisismo e muito talento.
Um cenário ideal para a fermentação de toda a genialidade musical e poética que depois ele entregou ao mundo.
Destaco dois momentos do filme:
- Após uns poucos minutos de aulas de banjo, dadas por sua mãe Julia, Lennon passa horas tentando aprender sozinho a dominar o instrumento, e no final do dia, com os dedos bem doloridos, executa o instrumento como se o conhecesse a anos.
- O encontro dele com Paul, quando foram formalmente apresentados e, a partir dali, toda a cumplicidade e parceria que se formou entre eles. Parecia que um sabia o que o outro estava pensando. Eram como irmãos.
A trilha é muito boa, com trechos de músicas pré-Beatles e arranjos juvenis bem relax.
O filme é fraco. Na verdade, muito fraco. Mas para quem se alimenta de Beatles e de todo o seu legado, recomendo, afinal, já assistimos coisas bem piores que isso !
GM
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Os Dead Rocks na compania de Black Sabath, Mutantes e 'Crosby, Stills & Nash'

Sábado de aleluia, na livraria Cultura de Campinas, na feliz compania de meu filho em busca de algum material que fizesse valer à pena nosso meio-de-feriado.
Enquanto examinava sóbriamente a estante de LP´s, o filhote me cutucou com a ponta da capa plástica de um CD.
Olhei pra baixo curioso e pude ver naquelas mãos pequeninas o primeiro disco dos Dead Rocks.
Me lembro como ontem: 1994 ou talvez 1995. Na cidade de São Carlos/SP em visita a parentes da patrôa-dona-onça, conheci dois jovens músicos talentosos, ambos primos de minha mulher.
Emílio, hoje baterista e percussionista experiente (já gravou com Milton Nascimento e Daúde) e Fábio Martins, hoje guitarrista dos Dead Rocks, assinando na alcunha de Johnny Crash.
Naquela visita a parentada, pude ouvir o Fábio ensaiando Yesterday (dos Beatles) e fiquei muito impressionado com sua técnica perfeita.
Anos mais tarde, talvez em 1998, foi nossa vez de recebermos a visita do Fábio em Campinas/SP, desta vez na casa dos pais da Dri.
À noite fomos ao bar Delta Blues da Av. Andrade Neves, na época o único reduto sério para quem quisesse ouvir rock e blues em Campinas/SP.
Fábio foi conosco e ficamos todos conversando e ouvindo o bom e velho rock'n roll.
Depois de algumas rodadas tentei um espaço na programação da casa para Fábio tocar Chuck Berry...falei com o gerente, argumentando que ele era um talento vindo de São Carlos e queria fazer um número rápido no intervalo da banda.
Fui solenemente ignorado.
Voltamos a pé para a casa do Sherlock, pois a distância era de menos de 02 quadras.
Voltei a encontrar com Fábio várias vezes e constatei sua evolução musical na execução da guitarra.
Hoje, ouvindo o disco dos Dead Rocks, pude ver o profissional que ele, ou melhor, Johnny Crash, se tornou: um guitarrista seguro, dono de riffs originais e com total domínio do instrumento.
Valeram todas as horas que dedicou ao estudo das escalas.
Comprei o CD e, num repente, comprei também os seguintes LP´s:

- Black Sabath 1970, com aquela foto arrepiante na capa (história rápida: no livro "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer" organizado por Robert Dimery, há uma nota dizendo que o fotógrafo clicou apenas a casa...a imagem da bruxa apareceu "sozinha" na revelação do negativo...dúvidas ? Perguntem ao Ozzy);


- Mutantes (1969), o clássico da foto da Rita Lee cantando vestida de noiva na capa;

- 'Crosby, Stills & Nash' (também de 1969), considerado pela revista RS um dos 500 melhores discos de todos os tempos (na capa, uma grande foto dos três sentados num sofá velho e ao lado, a foto de um quarto cara olhando pela janelinha da porta - não é o Neil Young !).
São prensagens de 2008, infelizmente as originais ainda não achei.
Voltamos pra casa felizes, lambendo os dedos sujos de chocolate e dando altas gargalhadas sobre uma estória maluca do Naruto tentando salvar o mundo.
Esta fica pra próxima...
GM
GM
terça-feira, 19 de abril de 2011
A Woman Left Lonely
Impossível saber quantas vezes escutei esta canção incrível que Janis Joplin gravou.
O compositor Dan Penn jamais poderia imaginar a emoção que Janis iria colocar na música, quando de sua gravação e como ela iria alterar definitivamente a relação intérprete x canção.
Hoje, por puro acaso, ouvi mais uma vez este belíssimo hino. Saindo de Anápolis e seguindo a Goiânia, o rádio do carro distraídamente capturou uma FM qualquer, numa programação que homenageava lendas do rock.
E a música da vez era A Woman Left Lonely.
Pra quem nunca ouviu este som, vou tentar transcrever a seguir:
Começa com uns acordes de piano bem suaves, quase perdidos no arranjo.
Aí ela entra com uma voz rouca e contida. No fundo o baterista ataca com o prato de condução, bem baixinho.
Logo depois entra um órgão Hammond dando oportunidade para ela subir um pouco o tom e a intensidade da voz.
Já juntos, baixo, bateria, piano e órgão emolduram a voz dela que finalmente se solta...alta e rouca.
De repente, ela cala.
O órgão ataca mais forte, marcado pela caixa da bateria e pela guitarra, sutil ao fundo. Parece que o tempo congelou.
Então ela volta num grito afinado, alto, rouco, intenso....parece cantando com a alma, parece cantando com dor...mas feliz, meio que se revoltando e liberando muita energia.
Sua voz volta a ficar contida no quarto verso. Tão baixinha e triste que chega a arrepiar.
Nessa hora ela parece realmente uma mulher só e ferida, machucada.
Se eu estivesse com ela nesse momento, a pegaria no colo e a encheria de beijos, dizendo: "Calma...eu vou cuidar de você..."
É mesmo um dos trechos mais belos da música.
A canção segue, bem arranjada e completamente intensa. Com muita emoção.
Nota-se na parte final que todos os músicos se entregaram. Eram todos um só.
Queria ter estado no estúdio nesta hora. Queria ter visto esta cena.
A música está no álbum Pearl, lançado em meados de 1970, logo após a morte de Janis.
Já esta faixa é imortal na voz dela. Não interessa quantas outras a tenham regravado.
Mesmo para quem não é fã de Janis ou de blues-rock, recomendo ouvir ao menos uma vez.
Vai se uma experiência única !
GM
O compositor Dan Penn jamais poderia imaginar a emoção que Janis iria colocar na música, quando de sua gravação e como ela iria alterar definitivamente a relação intérprete x canção.
Hoje, por puro acaso, ouvi mais uma vez este belíssimo hino. Saindo de Anápolis e seguindo a Goiânia, o rádio do carro distraídamente capturou uma FM qualquer, numa programação que homenageava lendas do rock.
E a música da vez era A Woman Left Lonely.
Pra quem nunca ouviu este som, vou tentar transcrever a seguir:
Começa com uns acordes de piano bem suaves, quase perdidos no arranjo.
Aí ela entra com uma voz rouca e contida. No fundo o baterista ataca com o prato de condução, bem baixinho.
Logo depois entra um órgão Hammond dando oportunidade para ela subir um pouco o tom e a intensidade da voz.
Já juntos, baixo, bateria, piano e órgão emolduram a voz dela que finalmente se solta...alta e rouca.
De repente, ela cala.
O órgão ataca mais forte, marcado pela caixa da bateria e pela guitarra, sutil ao fundo. Parece que o tempo congelou.
Então ela volta num grito afinado, alto, rouco, intenso....parece cantando com a alma, parece cantando com dor...mas feliz, meio que se revoltando e liberando muita energia.
Sua voz volta a ficar contida no quarto verso. Tão baixinha e triste que chega a arrepiar.
Nessa hora ela parece realmente uma mulher só e ferida, machucada.
Se eu estivesse com ela nesse momento, a pegaria no colo e a encheria de beijos, dizendo: "Calma...eu vou cuidar de você..."
É mesmo um dos trechos mais belos da música.
A canção segue, bem arranjada e completamente intensa. Com muita emoção.
Nota-se na parte final que todos os músicos se entregaram. Eram todos um só.
Queria ter estado no estúdio nesta hora. Queria ter visto esta cena.
A música está no álbum Pearl, lançado em meados de 1970, logo após a morte de Janis.
Já esta faixa é imortal na voz dela. Não interessa quantas outras a tenham regravado.
Mesmo para quem não é fã de Janis ou de blues-rock, recomendo ouvir ao menos uma vez.
Vai se uma experiência única !
GM
quinta-feira, 14 de abril de 2011
A banda Hanói-Hanói e os bons tintos brasileiros
É verdade que ando investigando a rica cultura dos vinhos brasileiros. Por ordem de ofício, preciso aprender, mas por vias do destino, descobri a riqueza e a qualidade de nossos rubros, verdes e amarelos. É uma questão de geografia: qualquer espaço abaixo de 200 m de inclinação e longe dos desejados 31º de latitude sul, fatalmente não dará bons frutos. Neste sentido há uma ponta do território brasileiro apto e perfeitamente enquadrável no que especialistas chamam de terroir ideal. Não me perguntem. Ainda não cheguei neste capítulo ! Mas como consumidor assíduo de tintos, hábito que embalo desde 2003, posso me reservar o direito de dar umas poucas dicas: Procure os honestos. Tintos brasileiros acima de R$ 60,00 a garrafa são, no mínimo, ousados. Comece pelos Cabernet Sauvignon e depois pelos Merlot, se você aprecia tintos secos. Ou vá aos bem cortados Isabel com Bordeaux, se sua opção for por um bom tinto suave de mesa, como manda a ótima tradição napolitana. Relaxe e harmonize com o que quiser, mesmo que pareça um pouco desarmonizado. No final, o que conta é o prazer final, já diria a ilustre desconhecida banda Hanói-Hanói. Saúde ! GM
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