sexta-feira, 20 de abril de 2012

"Na Estrada"...palmas para Walter Salles



O filme "Na Estrada", uma bela adaptação do livro de Jack Kerouac (On The Road), representará o cinema nacional na disputa pela Palma de Ouro da 65º edição do Festival de Cannes.

Dirigido por Walter Salles ("Cidade de Deus" e "Central do Brasil") o filme promete marcar a presença do cinema brasileiro nesta edição do festival, que começa no dia 16 de maio, segundo o que anunciaram os organizadores da premiação, nesta última quinta-feira.

Aqui em terra brazilis, o filme estréia somente em junho.  Este  novo filme de Walter Salles conta com um elenco de astros e semi-astros: Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen e Alice Braga  (a única brasileira).

A disputa será com grandes nomes do cinema mundial, como Michael Haneke, Ken Loach, David Cronenberg, Alain Resnais e o mexicano Carlos Reygadas, entre outras feras.  Vale torcer ?  Não.

Vale sim assistir a película, tão logos os esquemas comerciais e de distribuição, bem idiotas e míopes, como sempre, permitam-nos esta possibilidade.

Ainda não somos prioridade, quando o assunto é cultura.  Parabéns DF !

GM









quarta-feira, 18 de abril de 2012

Boa parte da história do cinema brasileiro



Num livro muito interessante o cinéfilo Fernando (Fernão) Ramos, narra e desvenda boa parte da história do cinema brasileiro.

Sim, parte apenas.  A edição que li é datada de 1987.  Mas a cronologia limitada não tira o valor histórico da obra.

Estão lá todos os clássicos campeões de bilheteria: "A Dama do Lotação" e "Dona Flor e seus Dois Maridos". 

Também lá residem, entre suas linhas cheias de dados, as loucuras geniais de Glauber Rocha, Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos.

Um baita livro !

Apesar de datado e de, obviamente, não abordar a evolução da Ancine, da lei do áudio-visual, da lei Rouanet e da criação do polo de Paulínia/SP, a resenha é leitura obrigatória para quem gosta da sétima arte.

Não é um leitura chata e catalogar.  É cinema.  Escrito por quem gosta de ler, para quem gosta de assistir.

GM

Afinal, o que é Jeropiga ?


Segundo uma milenar tradição portuguesa e espanhola, Jeropiga é uma bebida obtida pela fermentação do mosto de uvas viniferas, adicionado de açúcar e álcool.

Este preparado é filtrado e engarrafado, podendo ser consumido gelado ou não.

Seu paladar é muito parecido com o de um vinho licoroso, mas não é vinho.  Trata-se de Jeropiga.  Uma invenção portuguesa, que era usada como compania etílica nas festas e nos folguedos de magustos.

Os magustos eram celebrações de famílias ibéricas, que, sentadas ao redor de fogueiras, assando batatas e castanhas, celebravam as noites frias do alentejo, consumindo bebidas como Jeropiga, água-pé e vinhos novos.

Beber Jeropiga está na moda no Brasil.  Assim como, nas casas noturnas de Barcelona, Londres e Lisboa.

Jovens adultos, mulheres sobretudo, se encantaram com o sabor levemente adocicado e refrescante do produto.  Sua aparência, quando no copo ou taça, misturado a pedras de gelo, remete aos mais finos licores europeus, com a vantagem de não ser uma bebida enjoativa.

Eu aprecio uma taça de Jeropiga à noite, na compania de minha mulher e de um bom corte de queijos fortes.  Minha marca preferda é a Jeropiga Gold, fabricada pela Passarin Bebidas, de excelente qualidade, em garrafa quadrada e muito acessível em termos de preço.

Uma bebida charmosa, diferente e que remete a tradição da vida em família.

Era tudo o que eu queria !

GM


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fúria de Titãs...titãs realmente enfurecidos !


A refilmagem de 2010 e sua rala continuação que ainda está em cartaz, nas salas abertas e em cine-clubes, são duas tentativas de se corromper o original, de 1981, que além de ser mais poético e fantasioso, tinha atores sérios, do calibre de um Laurence Olivier e de uma Claire Bloom.

"Fúria de Titãs" de 1981 é um clássico.  Um clássico digno de várias reprises em sessão da tarde.  Um filme que iluminou a imaginação de muitos quarentões de hoje. 

Numa época em que computação gráfica era coisa de Flash Gordon ou viciados em Interferon, o diretor Desmond Davis teve a coragem de criar um longa, apenas usando a técnica de motion-in-pic.  Quadro a quadro em 118 minutos.

O cara foi paciente.

O resultado não foi digno de um Oscar.  Mas serviu de referência para muitas outras estórias épicas, bem além das mazelas de Perseus, Medusa, Kraken e a gostosona Andrômeda.

A primeira refilmagem, de 2010, foi tosca.

A continuação da mesma, hoje em cartaz, foi infantil, até para os padrões do mais ingênuo dos infantes.

Não valeu a pipoca, portanto, ponha sal à vontade.

GM

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Uma estória de Chico e Tom


Tom não gostava de dar entrevistas.

Exceto na compania de amigos, de uma boa bebida e, de preferência, que a entrevista fosse em sua casa, na Gávea.

Tom era assim mesmo.  Meio normal e meio gente.

Óbviamente não o conheci pessoalmente.  Sou apenas um ouvinte permanente.  Mas de tanto ler e ouvir me tornei íntimo.  Dele e de sua arte.

Através da incrível cultura musical de meu tio Arlindo, pude acessar umas e outras estórias deliciosas.

Algumas me lembro bem, e vou compartilhar aqui com vocês, nesta pequena coluna.

Outras ficaram para trás.

Aqui vai uma, narrada pela memória do bom Arlindo:

Conta-se que Tom e Chico, já tranquilizados pela ação moderada de um bom scotch, estavam na Gávea, na casa do Tom, concedendo uma entrevista para a TV Globo.

Tom falava do novo disco e sobre a dúvida que tinha entre sair em turnê ou se dedicar a shows mais intimistas no Canecão, tradicional casa de shows no RJ.

Chico sorria.  Dava palpites.  Vez por outra esboçava uma idéia contrária à do mestre e logo se ajustava, humilde e zeloso.

Quando o repórter apontou o microfone para Chico, a conversa ficou um pouco mais tensa.  A pergunta foi sobre as preferências instrumentais de Chico, sobre sua técnica ao violão, e outra bobagem qualquer do gênero.

Chico sorriu e disse: "- Acho que até hoje ainda não aprendi a tocar violão...não sei por que insisto nesta profissão...".

Tom teria feito uma intervenção, dizendo que Chico era um grande violonista.  Mas isto já não tinha a menor importância.  Boas gargalhadas dissiparam a névoa daquela pergunta tosca e mais uma dose escocesa selaria a questão.

Tom falou mais.  Confirmou seu amor pelo Jardim Botânico e de como gostaria de morar numa árvore centenária de lá (hoje a dita árvore está lá e se chama "espaço Tom Jobim").

Seguiu a entrevista, feliz, dedilhando algum arpejo ao violão, com dificuldade, e olhando fundo nos olhos do repórter, teria dito: "- Violão ?  Liga pro Baden, a gente aqui só enrola...".

Outra saraivada de risadas, pôs fim definitivo aquele quiz ridículo.

Estava finada a entrevista. 

Chico e Tom seguiram casa adentro, enrolados num abraço cúmplice de irmãos, na vida e na música.

O violão ficou aguardando, na varanda, paciente, na compania do vento.

Coisa de gênio.

GM

terça-feira, 3 de abril de 2012

O "Céu da Boca", um dos maiores grupos vocais da história


Demorei uns anos para entender e gostar direito do som do "Céu da Boca".

Músicos de altíssimo nível.  Desprezadores assumidos dos hits e dos jabás das FM´s.  Um grupo vocal de música brasileira, como pouquíssimos, formado em 1979, com 11 integrantes vocais e outros tantos talentos no acompanhamento instrumental.

Demorei muito para assimilar o som deles.  Não tinha ouvido para tanto, naquela época.

Cravo Albin e seu importante compêndio musical diz:

"Seus componentes, sopranos, contraltos tenores e baixos, integrantes do coral da Escola de Música Pró-Arte (RJ), regido pelo maestro Jaques Morelenbaum, levaram as divisões vocais para a música popular brasileira. O repertório eclético incluiu obras de Ernesto Nazareth, Gilberto Gil, Assis Valente e Aíltom Escobar, entre outros.


Apresentava-se 'a capella' ou acompanhado por instrumentos (piano, violão, baixo e bateria) tocados pelos próprios integrantes do grupo.
Com seu primeiro LP, "Céu da Boca", lançado em 1981, ganhou o prêmio de Melhor Grupo Vocal, conferido pela Associação de Críticos de São Paulo.

No ano seguinte, lançou o LP "Baratotal".
Participou de discos de César Camargo Mariano, Wagner Tiso, Ivan Lins, Elba Ramalho e Nara Leão e, ao lado de outros artistas, dos LPs "O grande circo místico" (1983) e "Turma do Pererê" (1984).
Em 1983, de novo, foi eleito Melhor Conjunto Vocal do Ano pela Associação dos Críticos de Arte de São Paulo.
Atuou no cenário artístico até 1984, tendo realizado, nesse ano, o espetáculo "Praça XI dos bambas", ao lado da cantora Marlene. No show, escrito e dirigido por Ricardo Cravo Albin, cantava e acompanhava a história da MPB das décadas de 20 e 30 do século XX. "
 
Eu, na verdade, me surpreendo até hoje com a formidável extensão vocal de seus componentes.  Pela coragem do repertório e pela coerência das escolhas musicais.
 
Um pena eu ter tão pouco material deles. 
 
Outrossim, ouviria mais.
 
GM
 

quarta-feira, 28 de março de 2012

No mês em que perdemos Chico Anysio...

Também perdemos Millôr Fernandes.

Eu sei.  Todos nós sabemos.  A vida é uma sintaxe de alta complexidade.

Não sabemos, todos nós, por qual motivo viemos a esta esfera.  Também não sabemos por qual razão iremos, um dia, para o outro plano.

O fato é que nós iremos.  O fato, é que eles se foram.

Millôr e Chico fazem parte das minhas memórias.  Muitas delas.  Assistir Chico City, Chico Total ou Chico Anysio Show nas noites de terça ou de quarta dos distantes anos de 81 e 83, era quase uma obrigação canônica.  Um dogma que cumpríamos, eu, Arlindo e meu irmão Roberto, com rigor militar.

Uma delícia lembrar das risadas afônicas que Arlindo dava, a cada piada e a cada cena.  Impagáveis as memórias de ouvir os LP´s de Chico, em família, contendo a transcrição dos shows que fazia no Canecão.

Chico era quase da família.  Era quase a famíla.

Millôr era diferente, mas era igual.

Conheci Millôr através da crônica e dos textos de O Pasquim, que Arlindo comprava toda a semana e que eu lia, nos idos de 1979, sem entender quase nada, mas louco pelas fotos de Leila Diniz.

Millôr era uma figura mais distante, mas muito próxima.

Era meu cúmplice em sua prosa racional e em seu amor profundo, intenso e voraz, pelos ares do Rio de Janeiro, cidade que não pudemos compartilhar.

Uma pena.

No mês em que perdemos Chico, perdemos Millôr. 

Estaria, o Senhor, precisando de compania de alto nível e inteligente no paraíso ?  Entediado talvez, por tantas harpas e liras, resolveu convocar aos dois para uma partida de xadrez ?  O que diria John Milton ?

Não sabemos.

Melhor seria ter perdido duas dúzias de deputados.  Ou mais que isso, de senadores.

No mês em que perdemos Chico e Millôr, Dilma ganhou diploma de doutora honoris causa, conferido, carimbado e chancelado por importante universidade do exterior.

De certo os desconheciam, a Chico e a Millôr, por completo.

A vida é assim.  Uma sintaxe, de alta complexidade.

Saudades.

GM

P.S.: Para Arlindo e Roberto, pais e irmãos.