segunda-feira, 17 de junho de 2013

Para entender, ou não

Quando Tom Jobim recebeu o convite (que Henry Mancini aceitou) para compor a trilha sonora do filme original "A Pantera Cor-de-Rosa", recusou, gentilmente, com um sorriso de pauta, no canto da boca, dizendo:

- "...melhor não, tenho medo de que eles me ouçam...".

O universo de Tom era um Brasil de verdade, não o outro.

Relaxa, o entendimento não é nada além de uma falha genética em nosso sistema de percepção das coisas.

A compreensão é anaerobiose pura.  Você não a alcança, ela é que te acha.

GM

quinta-feira, 13 de junho de 2013

1984, de George Orwell, em 2013


Quando assisti a uma reportagem na TV sobre o livro "1984", de George Orwell, confesso que não tinha a maturidade necessária para entender.

Naquela época, meados dos anos 1980, Orwell (seu livro e o consequente filme) eram um completo mistério à minha geração pop.  Nossa turma bebia de águas muito mais rasas e se permitia, no máximo, a ler as linhas divertidas que Orwell verteu na "Revolução dos Bichos".

"1984" era, de longe, um assunto pouco interessante.

Mas o tempo é senhor de todos os caminhos e, como sempre o faz, seguiu em frente.  Muitos anos depois ganhei de presente de aniversário um belo exemplar de "1984".  O livro teve que ser paciente comigo.  Aguardou na estante durante todo o tempo que durou minha fase de biografias e de livros de música pop.

Aguardou e soube esperar sua vez.

Quando de fato comecei a leitura, pude lembrar da reportagem de anos antes, cujo repórter abria, lendo o trecho inicial do livro: "...Era um dia claro e frio de abril e os relógios marcavam uma da tarde...".  E depois começava sua crítica, dizendo: "...Assim começa um dos mais tristes e tenebrosos livros escritos nos últimos anos...".

Não estou seguro se a fala do repórter era essa mesma.  Também não me lembro seu nome, um global ainda hoje em atividade.   Mas receio que ele tenha acertado em cheio na mensagem.

"1984" é um livro único.  Pode gerar, naquele que o lê, vários tipos de reação.  Medo, revolta, incredulidade, nojo, asco, raiva, tristeza e sentimento de impotência.  Essas reações são produzidas não pelo conteúdo, inócuo, do livro, mas sim pela certeza de que suas linhas não são mera ficção.

Principalmente, quando comparamos o livro à nossa realidade.  O estado controla tudo.  O estado vê tudo.  O estado é tudo.

A escravidão intelectual (e ideológica) se torna mais sentida e agressiva do que a escravidão física do cidadão.  O Grande Irmão (Big Brother) tudo vê, tudo sabe e tudo quer.

No livro, o passado é reescrito várias vezes, para melhor manipular a massa, que sabe disso e o aceita com passividade.  Cada indivíduo deixa de sê-lo, à medida que, por força do medo, se deixa engrenar numa estrutura tão grande e perene, que não pode sequer ser questionada.

O presente é o exercício da agonia ideológica e o futuro, um mero detalhe.

O livro é triste, sim, mas é um aviso também.  Olhe ao redor e veja se o estado tem a dimensão que deveria e se os meios de comunicação estão sendo usados para, de fato, comunicar, ao invés de manipular.

O conceito de Big Brother foi imbecilmente colado a um programa de TV que ajuda justamente a mimetizar este processo.  Levando conteúdo imbecil, parra mentes imbecis que se deixam imbecilizar ainda mais.

Isso sim, é triste.

Hoje, 2013, a intimidade de muitas pessoas já é vasculhada, investigada e detalhada em nome de um bem maior (a segurança), através da tecnologia que serve, ao mesmo tempo, de analgesia e de conteúdo.

Resta entender que bem maior é este e a quem ele beneficia.  Resta entender qual será o próximo passo, na devassa da individualidade e na construção de uma grande massa disforme, manipulável e moldável, na fôrma do interesse de alguém.

Nada é gratuito. 

Toda essa neuro-estrutura que está aí, com trilhões de conexões e trilhões de bilhões de possibilidades, faz parte de uma arquitetura maior, com objetivos maiores.

Talvez a matriz já exista. 

Talvez já saibamos disso.  Tudo ficará como como está e com a nossa aprovação servil, afinal, pensar e racionalizar são atos cada vez mais distantes e cada vez mais ausentes.

GM

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O mundo sem alho seria muito chato...

Eu digo, a quem puder ouvir, que o mundo sem alho, seria, deveras, muito chato.
 
O mundo sem alho e cebola, seria, de fato, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola e sem azeite, seria, certamente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite e  sem vinho tinto, seria, precisamente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto e sem nozes, seria, plenamente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes e sem livros, seria, indubitavelmente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros e sem música seria, verdadeiramente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música e sem cinema, seria, tragicamente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema e sem matemática, seria, dramaticamente, muito chato.  Um mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática e sem feriado, seria, tediosamente, muito chato.   O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática, sem feriado e sem minha mulher, seria, abissalmente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática, sem feriado, sem minha mulher e sem meu filho, seria, incorrigivelmente, muito chato.  O mundo sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática, sem feriado, sem minha mulher, sem meu filho e sem minha família, seria, possivelmente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática, sem feriado, sem minha mulher, sem meu filho, sem minha família e sem meus amigos, seria, desastrosamente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática, sem feriado, sem minha mulher, sem meu filho e sem minha família, seria, passivamente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática, sem feriado, sem minha mulher e sem meu filho, seria dolorosamente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática, sem feriado e sem minha mulher, seria, contemplativamente, muito chato. O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema, sem matemática e sem feriado, seria, exaustivamente, muito chato.    O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música, sem cinema e sem matemática, seria, imprecisamente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros, sem música e sem cinema, seria, tristemente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes, sem livros e sem música, seria, insonemente, muito chato. O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto, sem nozes e sem livros, seria, inutilmente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite, sem vinho tinto e sem nozes, seria, sensorialmente , muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola, sem azeite e sem vinho tinto, seria, sobriamente, muito chato.  O mundo  sem alho, sem cebola e sem azeite, seria, decididamente, muito chato.  O mundo  sem alho e sem cebola, seria, ruminantemente, muito chato.
 
É por isso que eu digo, àqueles que ouvem, que o mundo sem alho seria, pateticamente, muito chato.
 
GM

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Secos e Molhados, 40 anos depois


A década de 1970 foi fértil em termos de produção musical.

A marola psicodélica e esfumacenta dos anos 1960 tinha ficado para trás e a cena musical ganhava ares de profissionalização e massificação.

O fenômeno pop star foi inventado e, com ele, grandes shows, turnês gigantescas, muito barulho indigno e muita coisa boa, veio também.

Especialmente o ano de 1973 foi diferenciado em termos de bons discos lançados. Pink Floyd lançou o block buster "The Dark Side of The Moon", Edu Lobo lançou o sofisticado "Edu Lobo - Missa Breve", Paul McCartney (com os Wings) lançou o incrível "Band on the Run" e, só para encerrar esta parte de citações, Lynyrd Skyrnyd lançou o seu álbum, impronunciável.

E isto é apenas uma amostra preguiçosa do que foi o ano de 1973, em termos de produção musical. 

E lá se foram 40 anos !!

Foi neste contexto que surgiu aqui em Pindorama uma banda (se é que podemos chamá-los assim) diferenciada e com um disco extremamente criativo.  Nascia o "Secos e Molhados", via disco homônimo, com uma sonoridade linda, moderna e uma poesia impressa no DNA de seus integrantes.

Eram músicos interessados em fazer música e em reviver poesia.  Eram profissionais de muito talento e profundidade musical.

Ney Matogrosso, um monstro nos vocais.  João Ricardo com uma técnica apurada no  violão de 12 cordas e harmônica.  Gerson Conrad com uma simplicidade e uma economia precisa ao violão.  Marcelo Frias e sua bateria jazzística.

Além da base regular, o grupo contou com a contribuição de muita qualidade de feras como Sergio Rosadas (flauta), Zé Rodrix (piano e acordeão) e Willi Verdaguer (contrabaixo).

O resultado foi um disco único, cheio de estilo, com arranjos primorosos e que parecia estar 40 anos à frente de seu tempo.

Como se tivesse sido lançado em 2013, ou algo assim !

Recomendo.

GM


terça-feira, 4 de junho de 2013

Do vinho tinto ao frio, com direito a Huxley para acompanhar



"Às Portas da Percepção".

Livro do visionário Aldous Huxley, que descrevia sua primeira viagem santa à base de mescalina.

Anos mais tarde, esta mesma viagem serviria de inspiração para uma trupe de doidões batizar a própria banda de rock.

Nasciam, então, os indomáveis, ou quase, The Doors.

Não me interesso por mescalina.  E nem por qualquer outro tipo de droga, seja química, natural, vegetal, sintética, fumável, cheirável ou injetável.

Minhas viagens cotidianas se limitam ao pouco do que posso beber e ao muito do que posso ler.

E nesses dias tão londrinos, de um inverno quase ceuta, me permito exercitar a deliciosa dependência calculada que permito a Baco exercer sobre mim. 

Eu bebo (vinho tinto)  sim, e estou vivendo !

O fruto santo vem de uma trepadeira da família das vitáceas que pode se chamar, dependendo da região, de videira, parreira ou vinha.  O nome não foi escolhido ao aleato. 

Videira é a árvore da vida !

Quem bebe vinho tinto, um pouquinho a cada dia, moderada e lentamente, vive mais.  Mais feliz, mais sorridente, mais leve e mais relaxado.

Os benefícios do resveratrol à saúde são muitos, todos conhecidos e catalogados pela ciência.  Não vou aqui me deter a eles e ao óbvio.  Há até quem não acredite em resveratrol ou seus benefícios, mas que este sabe  muito bem que o dito existe...ah sabe !  E disso não o duvida, pois dito que o bebe !

E me permita aqui bater forte naquele que esnoba no rótulo mais caro !  Bom vinho é aquele que lhe faz bem, à boca e ao bolso.   Eu mesmo bebo tintos de no máximo R$ 49,00 a garrafa.

Hoje, a quantidade de tintos com muita qualidade que custam qualquer coisa abaixo de R$ 30,00 é muito grande.  Está tudo muito acessível.

É como se o próprio Dionísio caminhasse entre nós, plebeus e mortais, apontando o caminho das prateleiras mais democráticas e distintas.

Esnobar pra que ?

Então, enquanto houver frio, haverá vinho tinto e enquanto houver vinho tinto, mesmo sem frio, haverá um sorriso a mais, um encontro a mais e amarguras a menos !

Matemática perfeita, diria Arquimedes !

Saúde aos amigos, digo eu !

GM



sexta-feira, 31 de maio de 2013

O Dossiê Odessa


Frederick Forsyth que era mais jornalista do que escritor, foi minha companhia neste feriado maior do que o de costume

E ele era mais americano do que inglês, também, mas isto não vem ao caso.  Pelo menos não para mim e nem para você, leitor.

Ocorre que após romper com o anonimato  e a vadiagem digna de um bom desempregado, após ter escrito e publicado, com imenso sucesso, "O Dia do Chacal", em 1970 (best seller que 27 anos depois, daria a Bruce Willis e Sidney Poitier, a chance de "refazer" o livro no cinema, de novo), Frederick Forsyth resolve ir além.

Escreveu e publicou, em 1972, o enigmático "O Dossiê Odessa", livro que desnuda a existência da organização ODESSA, criada para proteger ex-nazistas e simpatizantes do regime do partido Nacional Socialista.

A ODESSA era composta, em sua base, por sobras da SS nazista, mas seus interesses estavam além disso.

Publicar naquela época um texto como esse, cheio de verdades, já configurava ao autor a coragem do ato.  Fazer isto num período em que a guerra fria estava no auge e espionagem, assassinatos e extradições eram tão reais como hoje um filme de Tom Cruise, seria loucura.

Uma loucura medida, é verdade, mas ainda uma loucura.

O livro começa com uma narrativa sobre o assassinato de Kennedy, em 1963 e segue em frente, numa trama de tirar o fôlego que envolve EUA, Israel, Egito, Alemanha e a antiga URSS.

Recomendo a leitura, para quem gosta de um bom livro de história, sabendo da verdade e sabendo também da coragem necessária para isso, afinal, esta leitura não será gratuita.  Isso eu garanto.

Depois você me conta.

GM





quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tommy, a ópera-rock, 44 anos depois


Um homem de 44 anos de idade.

Um tiozinho.  Um exemplar de Sapientis Balzac.  Um carinha meio-grisalho e meio-careca.  Um quase barrigudinho de estrias e varizes salientes.

É isso que eu sou.

Uma criatura com o privilégio de ter presenciado 75% de toda a produção musical de qualidade e beleza desta velha terra, desde que meus ouvidos despertaram, em 1978.

Os outros 25% escorreram por entre meus dedos, enquanto eu ouvia futebol, pela rádio Nacional AM.

Fui testemunha do fim da era da música de protesto.  Acompanhei o lançamento dos melhores discos de Chico e Caetano.  Assisti o ocaso do Clube da Esquina.  Esquentei o esqueleto ao som de Donna Summers.  Ignorei o punk, e depois me arrependi amargamente. Ensaiei passinhos ridículos embalados por Sugarhill Gang.  Fiquei maluco com a genialidade de Michael Jackson.  Desprezei o pop vazio de Madonna.  Pirei tardiamente com Beatles e seu universo.  Assimilei e defendi bravamente o movimento BRock.  Curti Paralamas, Barão, Legião, Plebe Rude, Finis Africae, Picassos Falsos e tantos outros oitentistas de qualidade.  Não entendi a dance music e o tecno-pop.  Aprendi a gostar de New Order e Pet Shop Boys (mas, bem pouquinho).  Flertei com o movimento grunge. 

E segui em frente...

Me abri para as muitas pesquisas atemporais que, sem cronologia, me permitiram conhecer o jazz, o blues, o samba-de-prato, o poder do Southern Rock (Lynyrd Skynyrd, principalmente), a força do The Band e do Blood, Sweat and Tears, a beleza incomparável da bossa-nova e a fumaça da paz dos Bob (o Marley e o Dylan).

Música é um dos pilares que me equilibram.  E eu vivo para ela, também.

Então, com o privilégio de ter hoje 44 anos e ter assistido, no gargarejo, ao despertar e fixar da boa música das últimas décadas, é que venho louvar, como o velho Gil, o aniversariante do dia !

Hoje é dia do aniversário de lançamento do disco Tommy, a ópera-rock do The Who, que foi parida em 23 de maio de 1969, 44 anos atrás.

Um disco que não vendeu muito, foram pouco mais de 20 milhões de cópias, mas que fundou o gênero e confirmou Pete Townshend, como um compositor sério e musicalmente preparado.

O disco, que daria ainda origem a um filme em 1975 e a uma produção teatral, tinha como cena de fundo a insólita vida de um menino, meio cego e meio surdo, mas que ouvia tudo e observava tudo, pela sensibilidade da música que não se ouve.

Tina Turner, Eric Clapton e Jack Nicholson emprestaram fama e qualidade à película que foi produzida em 1975, mas infelizmente, não entraram na produção do disco.

Ouvir o disco é uma aventura, tanto quanto ouvir The Who em sua essência.  Não espere baladas bonitinhas e arranjos comerciais.  Trata-se de um disco do The Who, e como Roger Daltrey dizia, a música deles não era pra ser ouvida, mas sim digerida.

Recomendo, mas tenha cuidado.   Esse disco fará você pensar, mais do que o necessário, e mais do que o de costume.

GM