terça-feira, 21 de maio de 2013

O que nos falta, é uma "Virada Estrutural"


E viva toda forma de iniciativa para a  difusão da cultura e da experimentação !

A "Virada Cultural" de São Paulo, com certeza, é uma dessas iniciativas.  Um exemplo de inteligência cultural, mais do que uma opção de lazer para o cidadão.

Um verdadeiro evento mult-cult.

Música, arte, dança, gastronomia...São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, humanizando seu asfalto e seu concreto.

No conceito purista da organização do evento.  Na beleza das iniciativas culturais.  Na abrangência democrática das agendas.   Deu tudo muito certo.

E o que não deu tão certo assim ?  O papel das instituições.

Faltou segurança pública e sentimento de "estar seguro".  Não haviam banheiros químicos na quantidade devida.  Não ocorreram mudanças na circulação das vias, que pudessem assegurar um ir-e-vir mais fácil.

Não houve mobilização estrutural por parte do poder público. O mesmo poder público que vai se apoderar da imagem do evento para conseguir alguns votos a mais, na próxima eleição.

Numa cidade como São Paulo, nunca haverá disseminação mult-cult de verdade, sem que haja antes uma verdadeira "virada" estrutural, a exemplo do que já ocorre em outras grandes cidades.

A música, a dança, a arte e a gastronomia precisam de um palco à altura de seu público.

Se esta "virada" estrutural não ocorrer, o evento será sempre um arrazoado de barraquinhas, lonas e tendas, a espera da garôa ou do próximo arrastão.

São Paulo merece mais que isso !

GM

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Blues Brothers, Bruce Willis e a música de elevador


Sabe quando você escuta tanto determinada música, tantas vezes e em tantos lugares diferentes, que parece que ela simplesmente deixou de existir ?

E quando uma música é tão presente no seu cotidiano que você simplesmente deixa de prestar a atenção nela, já percebeu isso acontecer ?

Existem músicas que estão tão enraizadas à nossa vida e que são tão reproduzidas pelos meios, que simplesmente parecem se tornar...silêncio.

Mas silêncio também se escuta.

Alguns chamam isso de "música de elevador".  O standard dos standards.  O clássico dos clássicos.  Aquelas músicas que estão inseparavelmente soldadas ao inconsciente das pessoas, permanentemente.

Às vezes, dormimos com elas e acordamos com elas, sem perceber.

Outro dia, estava assisitindo com meu filho ao último filme de Bruce Willis, da franquia "Duro de Matar", que, dependendo da áura e do momento do expectador, pode ser chamado de "Duro de Assistir".

No filme, há uma cena em que o personagem de Bruce (o durão John McClane), acompanhado do próprio filho e do vilão da estória, todos juntos num elevador de um prédio antigo, passam por um momento cômico.

Nesta cena, dentro do elevador, é possível se ouvir a melodia inconfundível de "A Garota de Ipanema", clássico de Tom & Vinícius. 

Três caras durões ouvindo bossa nova, nada de muito anormal, por enquanto.

Durante a edição da película, o diretor John Moore decidiu não usar uma outra cena, que trazia um diálogo cômico dentro desse elevador.

Na cena não usada, o filho do herói, ao ouvir a música dentro do elevador teria dito que aquela música era um clássico de Sinatra.  McClane, de mau-humor, teria corrigido dizendo ser um hit de Dean Martin e, o vilão, ouvindo aquelas baboseiras, teria dito baixinho: "...Gentlemen, it's Jobim...", sendo imediatamente calado por um bom bofetão  de esquerda.

Ora, não me preocupa aqui a ignorância musical dos brutamontes McClane e seu filho espião.

Burrice é burrice em qualquer lugar do planeta, até em Hollywood e até na pele de personagens quixotescos de uma franquia desgastada como esta.  Além disso, aquela burrice foi plantada naquela cena intencionalmente, para criar um clima cômico dentro de uma cena de tensão.

Também não é importante aqui, dizer que esta cena foi inspirada (ou surrupiada) em (ou de) outra clássica cena de um excelente filme oitentista. 

O filme "Blues Brothers" (1980), que aqui em Pindorama teve a infeliz e inexplicável tradução de "Os Irmãos Cara-de-Pau", tem uma cena ultraclássica em que os irmãos Jake e Elwood Blues estão  dentro de um elevador e, ao fundo, se ouve a mesmíssima "A Garota de Ipanema", dos mesmíssimos Jobim & Vinícius.

Uma boa idéia, bem copiada por John Moore e mal executada pela dupla de anabolizados Willis e Courtney.

Mesmo  assim, o ponto, aqui, não é esse.

O que me interessa nesta estória é que, de fato, existem as chamadas "músicas de elevador".  São os clássicos que, de tão assimilados, se tornaram parte do DNA de nossos ouvidos.  Nossas bigornas e martelos já não distinguem conscientemente a batida de suas melodias.

São canções que, de tão belas, se tornaram invisíveis e silenciosas.  Graças à Deus, pois é preciso saber ouvir o silêncio.

Minha lista de "músicas de elevador" não é grande.  Certamente Tom Jobim está presente, com "Wave", que por ter vocação instrumental, se presta melhor a este papel do que "A Garota de Ipanema".

Também considero "New York, New York", "What a Wonderful World" e "Singing in the Rain", como elegíveis nesta estranha e ridícula categoria.

As demais canções, todas, merecem audição atenta, calma e bem acompanhada.  Pois música é música, apesar das bobagens que Hollywood, de vez em quando, faz.

GM





terça-feira, 14 de maio de 2013

O Lulismo é inevitável...relaxe e aproveite !


O Lulismo é um movimento metapolítico que envolve complexos mecanismos de manipulação e de autenticação do ilegítimo.

É uma aberração institucional que já se tornou bandeira de vida (ou de morte), para milhões de brasileiros desesperados por uma causa.

Esses brasileiros, perdidos e catalogados na base eleitoral, são como grãos de milho, que, felizes, vão para o fundo do pilão, cumprir seu papel de argamassa e tijolo.

E a construção que se ergue não é um abrigo.   É um asilo político e um projeto de poder.  Tal qual George Orwell previu.

"Uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade bonita" - A. Hitler

GM

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Charles, Studio 260


Nós não tínhamos mais do que 13 anos, quando começamos aquilo que podia ser chamado, na época, de, "vida social noturna".

Nossa turma era unida.  Amigos da mesma rua, compartilhávamos escola, cinema, futebol na rua de terra, conversas noite à dentro, mentiras, verdades e, às vezes, compartilhávamos até namoradas.

Algumas, mais "dadas", eram conhecidas como "namoradas dos meninos", um jeito carinhoso e tênue de se dizer que as meninas da nossa rua, namoravam os meninos da nossa rua.

Azar das turmas que viviam da Rua Saturno, pra lá !

Nossa rua era a Cordura, que, num português que já não se fala mais, se traduz em cordialidade, sensatez e prudência.  Não por coincidência, nossa turma era bem desse jeito: nenhum de nós soube experimentar, jamais, nenhum tipo de droga, todos trabalhávamos e estudávamos ao mesmo tempo, nossas famílias, vizinhas, se conheciam décadas à dentro.

Era uma confraria, sem nunca ter sido.

Nossos dias eram preenchidos pelas coisas que permeavam o universo do moleque de 13 ou 14 anos: escola, cinema, clube, televisão, trabalho em meio período, futebol pela rádio Nacional AM (na época de José Carlos Araújo, Deni Menezes...), peladas na rua ainda sem calçamento e meninas.

Neste ciclo, o clube e as meninas tinham uma devida e hormonal prioridade.

Nosso clube era o TCM (Tênis Clube de Mesquita), que tinha uma estrutura invejável, tanto para a época quanto para a realidade de nossa comunidade.  Todo domingo ocorria uma rotina sagrada para todos nós: as tardes eram preenchidas pela badalada matinê da Equipe Charles - Studio 260 e as noites, eram um caso à parte.

Durante a matinê, que funcionava como uma espécie de aquecimento para o que viria depois, as paqueras eram sinalizadas e combinadas para depois.

E depois, já à  noite, acontecia o lendário baile da Charles 260, que só acabava as 23h00m, com as luzes acesas e ao som do mais puro Rock and Roll.

Aqui vale à pena destacar a qualidade daquilo que os DJ's da equipe Charles (Carlinhos Animal) faziam.  A seleção era eclética e de alto nível.  Do pop ao rock, da MPB às baladas pra dançar coladinho, rolava de tudo e com um som de muito bom nível técnico.

Ouvíamos e dançávamos Michael Jackson, Chic, Titâs, Legião, Kiss, Guns, Barão Vermelho, Bangles...de tudo um pouco.  E como o Carlinhos era na época locutor de uma FM (se não me engano a Ipanema FM), levava todos os lançamentos e todas as novidades para os bailes do TCM.

De Sig Sig Sputnik à Oingo Boingo !

O baile começava agitado, depois havia um espaço para as chamadas "músicas lentas", ou o "disco-sarro", como dizia o DJ e aí vinha o bloco final, com mais agito.

No final do bloco de lentas o Charles dizia sempre: "...quem beijou, beijou, quem não beijou deixa pra domingo que vem...!"  E aí começava mais um sequência de hits dançantes.

Memorável !

Das muitas estórias recordadas pela nossa turma da rua Cordura, Ciência, Virtude e União (nomes das ruas que faziam nossa comunidade - 'o universo conspira à favor'), amigos de infância e de fé, a grande maioria teve como trilha sonora o competente trabalho da Charles Studio 260 e como cenário de fundo, as piscinas do TCM.

Este fim-de-semana todos eles estarão juntos celebrando mais um aniversário da equipe, num evento lá mesmo no TCM.  Como não estarei presente, infelizmente, farei daqui de casa o meu brinde, desejando aos amigos saúde e torcendo muito para que haja alguma forma de se resgatar aquela tradição e aqueles valores que muito contribuíram para a nossa formação musical.

A isso, saúde !

GM



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ainda é cedo para sermos tão jovens


Então, eis que fomos assistir ao muito comentado e já cultuado filme "Somos Tão Jovens", do diretor Antonio Carlos da Fontoura e com Thiago Mendonça, no papel de Renato Russo.

Eu, por obrigação de ofício de ter sido testemunha ocular daqueles tempos, e, meu filho, pela curiosidade que essa tal de "Legião", começa a fustigar em seus neurônios.

E aproveitando o parêntese já aberto, digo que como é incrível observar o poder e a força que a música dessa banda ainda exerce sobre gerações que, sequer, acompanharam um único show ou compraram um único disco deles.

Não que a qualidade musical fosse algo muito acima daquilo que já se fazia na época.   Na verdade, musicalmente, Barão Vermelho e Paralamas estavam, na minha opinião, um degrau acima em termos de harmonias e bases. 

Mas não na linha poética e iconoclasta.

A Legião Urbana contestou todas as formas de estruturas musicais que existiram de 1979 a 1986.  Destruíram todos os mitos e ícones que acercavam a produção musical daquela época e, seus integrantes, tornaram-se músicos profissionais, sem nunca terem sido de fato.

Uma proeza punk.

Voltando ao filme, me parece que a preocupação do diretor e do roteirista, Marcos Bernstein, foi usar a mística e a devoção que existe na lógica relacionada à Legião e seus devotos, para, com isso, construir um block buster comercial.

Nada errado com essa ética questionável.  Todo mundo gosta e precisa de dinheiro, principalmente a Fox Filmes que distribui e co-produz a película, mas, mesmo assim, acho que a turma da colina merecia outra abordagem.

Todo o contexto político da época foi, quase, ignorado.  A cena, que deveria ser biográfica, não captou com profundidade a personalidade de Renato.  Foram rasos demais.

Erraram pelo excesso de clichês, maconha, bebida e acentuaram demais os traços sexuais de Renato, exagerando em forma de caricatura e expondo a figura humana dele, ao ridículo.

Na minha lente, de quem viveu aqueles anos, comprou todos os discos e leu a biografia escrita pelo Arthur Dapieve (editora Relume Dumará - 2000), o filme deixou a desejar em conteúdo e extrapolou na embalagem pop.

Contaram uma fábula, bem intecionada, é verdade, mas esqueceram de um pequeno detalhe: a música daquela geração.

Eu sei que será difícil para qualquer um que tenha vivido aqueles anos, e, também, tenha ouvido aqueles discos em rodas de acampamento, com amigos e namoradas, ver o filme e não se manifestar.

Eu faço isso agora, crendo que o filme foi incompleto e raso, escrevo e registro minha fala.  Quem quiser ler, que leia.  Quem quiser ouvir, que ouça.

Renato teria feito o mesmo, comigo ou com qualquer outro.

Força sempre !

Urbana legio omnia vincit.

GM

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Aquilo que não é funk



Nada tenho, como ouvinte e defensor da música, contra o funk, enquanto gênero pop.  Pelo contrário, ouço, sempre que posso, e divulgo junto aos amigos que frequentam nossas rodas de conversa fiada e boa música.

Lá em casa se ouve funk, sim e isto é bem verdade !

Ouvimos Banda Black Rio, sobretudo o disco "Maria Fumaça".  Ouvimos James Brown, principalmente a fase pré-cadeia.  Ouvimos Afrika Bambaataa, principalmente o disco "Planet Rock".  Ouvimos SugarHill Gang e a sua indispensável "Rappers Delight".  Ouvimos demais "Earth, Wind and Fire" e "Kool and the Gang".

Ouvimos funk. 

Curtimos funk.  Compartilhamos funk.  Sou geração oitentista e tive o privilégio de vivenciar e acompanhar a popularização do funk.  Primeiro pelas mãos de Aretha Franklin, em parte, e "Funkadelic" em outra parte.  Depois pela presença do "Sly and the Family Stone" e do "Soul Sonic Force", já com uma levada mais eletrônica, mais ainda muito funk.

Ouvir funk é uma experiência !

Vocais gospel no limite.  Metais vibrantes.  Contrabaixos com linha jazzística.  Arranjos enlouquecedores e dançantes.  Quem duvidar desafio a ouvir 10 segundos de qualquer hit do "Chic" ou da "Chaka Kahn" e tentar ficar parado, estático.

Vai ser difícil...

O funk ainda bebeu da boa água de gente como Steve Wonder, Ray Charles e Jorge Ben (hoje, Benjor). 

Sandra Sá (hoje De Sá), também contribuiu e cedeu sua potente voz ao funk em terras brasilis.

Em casa ouvimos funk o dia inteiro e ficamos em êxtase, querendo mais.  Este é o funk que inspirou Michael Jackson e Commodors.  Este é o "real funk, the real thing". 

O que invade nossos ouvidos pelos auto-falantes vizinhos, pelas FM´s comerciais e pela TV imbecilizada não é funk.  É outra coisa, não sei o que é, mas não é funk.

É um barulho simplista, repetitivo, erotizado, sem letra e sem propósito musical.  Pra dizer pouco !

Posso falar com autoridade neste assunto, pois, da mesma forma que ouvi, vi e testemunhei o funk verdadeiro, também vi nascer esse funk brasileiro (ou carioca) de hoje, nos bailes da baixada e nas noites da "massa", aonde este gênero tomou forma, vindo das festas juninas de rua e dos festivais de baloeiros das comunidades.

Já naquela época não gostava e não ouvia.  Hoje confirmo e reafirmo que aquilo de ontem e isso de hoje, não é funk.

E talvez nunca se torne.

GM

terça-feira, 30 de abril de 2013

Enquanto nos despedimos de grandes músicos...


...nossa música segue sem renovação.

Perdemos mais um.  Desta vez, Paulo Vanzoline, o poeta-doutor. 

A lista segue e se agiganta a cada ano. Desde a sentida e irreparável morte de Antonio Carlos Jobim, estamos testemunhando uma redução importante no panteão dos deuses de nossa música.

Redução sem renovação. 

Sim, eu sei que é muito querer que se renove ou substitua o talento de um Jobim (ou de um Vanzoline), mas o fato é que, nem de longe (de muito longe...), se pode observar uma pálida presença de uma nova safra de músicos, que possam acrescentar qualidade musical e renovação à nossa MPB.

Nem de longe e nem de perto.

Sem querer polemizar vou contar um "causo".  É verdadeiro, tem registro e é recente.  Mas apenas para evitar polêmica, vou omitir os nomes.  O fato é que, em fins de 2012 uma banda de pop, nova, jovem e descolada (pra não dizer alienada), entrou em estúdio para gravar seu primeiro CD.

O som deles é um pop grudento, daqueles que o refrão só sai de nossa cabeça à base de terapia.

Foram então até a sessão de gravação, todos com roupinhas coloridas, óculos pop-star e cabelinhos da moda, recebidos na porta de estúdio (no RJ...) pelo produtor e pelo engenheiro de gravação.

Após alguma amenidade, foram encaminhados às salas de gravação, enquanto um rodie do estúdio preparava os intrumentos.  Neste momento, aquele que talvez fosse o band leader, perguntou ao produtor aonde estariam os músicos de estúdio, para iniciarem a gravação.

O produtor, que também não vou citar o nome, mas que já produziu, por exemplo, Frejat, informou que não foram contratados músicos de estúdio e que a execução dos instrumentos seria a cargo da banda mesmo, como de costume.

Ele, pobre produtor com mais de 25 anos de experiência, imaginou que, no mínimo, a banda estivesse ensaiada e preparada.

A surpresa maior e definitiva só veio quando, aquele que deveria ser o guitarrista da bandinha, disse que eles não eram músicos de "formação", que estavam ofendidos com o despreparo do estúdio e que a sessão de gravação estava cancelada:

- Vocês não são músicos ?  Não tocam nada ?
- Não !  Nós temos uma imagem forte e muita atitude.   No palco é isto que conta !

Saíram todos muito bravos em direção aos seus respectivos Camaros.

Vou parar por aqui, enquanto vomito no dial de uma FM qualquer.

Só para que haja uma certa sintonia entre essa cena, que foi real, e o contexto desse post que ora escrevo, vou dizer que  gênero pop da bandelha eram um, entre as três opções abaixo:

a. Funk;
b. Sertanejo; ou,
c. Tecnobrega.

Já disse, não quero polemizar.  O fato é que o fardo de sustentar a qualidade e a consistência de nossa música está ficando muito pesado para Chicos, Caetanos, Paulinhos, Miltons, Joões e outros  tantos que, ao menos, conhecem um pouco daquilo que gravam.

Tenho medo de pensar o que estará reservado aos nossos ouvidos quando, infelizmente, perdermos estes também.

GM