terça-feira, 28 de junho de 2011

Glory, Tempo de Glória




Muitas coisas boas podemos fazer num frio como esses, que gela a alma de qualquer Nosferatu.


A lista não seria pequena. Talvez não fosse grande, mas pequena de certo não seria.


Beber um bom vinho, por exemplo.


Aconchegar a mulher amada embaixo do edredom e sentir o frio tórrido de seus pezinhos de gelo, lembrando que o frio existe.


Fazer uma boa pipoca e assistir um bom filme.


Ou ainda uma combinação de tudo isso.


Foi o que fizemos na noite de ontem. Uma das noites mais frias dos últimos 10 anos.


Assistimos a um clássico dos fins dos anos 80 (1989, pra ser preciso) que ainda não tínhamos assistido e que valeu muito à pena.


Glory, de Edward Zwick, com Morgan Freeman, Matthew Broderick e Denzel Washington.


Um belíssimo filme sobre a guerra de secessão americana, emoldurado numa estória de preconceito racial e luta entre classes sociais.


Morgan Freeman, fantástico. A cena do discurso está entre as melhores do cinema. Denzel Washington, incrível. A forma como fez a cena do chicoteamento foi incomparável. A lágrima que rolou por um olho só...coisa de mestre.


Já Matthew Broderick, apático, bobão e babaquinha. Como sempre.


O filme é obrigatório. Deveria fazer parte do currículo de qualquer ser humano, como estágio necessário a se alcançar o nível de “humanidade”.


Recomendo fácil.


GM

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O som e a fúria de John Legend and The Roots



Há muito tempo buscava uma batida como essa.

Mistura de R&B, funk e soul.

Sem falar nos vocais cheios de alma.

Quando um artista parece cantar como se fosse a última coisa que estivesse fazendo na vida.
John Legend é assim. A banda The Roots, também.

E os dois juntos são uma novidade melódica, rítmica e harmônica como não se via há tempos.

Falo do disco Wake Up, aonde esses dois ícones se juntam e fazem regravações e reinterpretações mágicas de clássicos do soul, do funk e do R&B.

Há muito tempo buscava uma combinação dessas.

É como se Ray Charles, Otis Redding e James Brown estivessem juntos no estúdio, endiabrados e santificados.

Fazendo o melhor que suas mãos saberiam fazer.

Recomendo sem medo de errar.

Será impossível para você ouvir esse disco e ficar parado no mesmo lugar.

É um desafio, depois você me fala.

GM

terça-feira, 21 de junho de 2011

Leila Diniz e a histórica entrevista ao Pasquim



“O Pasquim é um orgasmo instantâneo.”

Era assim que Paulo Francis, um de seus editores, classificava uma das vozes mais importantes no combate ideológico à ditadura militar, que existia em nosso país nos anos 60 e 70.

Uma resenha cultural. Um caldeirão de ideias. Um refúgio para intelectuais de esquerda. Um palco mal iluminado que deu voz e vez a nomes que iam de Chico Buarque a Henfil, passando por Paulo Mendes Campos e, a deliciosa, Leila Diniz.

Tive o prazer de ler dezenas de originais, comprados e guardados por meu tio Arlindo, que muito ajudaram a formar as ideias que hoje atazanam meus neurônios.

O Pasquim era a voz da república das bananas e o algoz dos generais de pijamas.

Lembro aqui de uma das entrevistas mais marcantes e esperadas, publicada no Pasquim. Leila Diniz, no auge de sua sensualidade e competência artística, foi entrevistada por Jaguar, Sérgio Cabral e Tarso de Castro em dezembro de 1969.

Os três jornalistas babavam. Davam olhadas disfarçadas para o corpo daquele monumento de mulher. Faziam uma ou outra insinuação e beliscavam perguntas inteligentes e divertidas.

Falou-se de tudo: sexo, cinema, TV, política, música e comportamento.

Sempre com um tom apimentado, bem característico do Pasquim, a entrevista foi um dos marcos do novo movimento jornalístico que varria o país e que encontrava refúgio em títulos como o JB, Última Hora e Folha de SP.

O Pasquim, há tempos, parou de circular. Faltou dinheiro, estrutura e ânimo físico para continuar.

A censura e a repressão eram fortes demais naquela época.

Sim, é verdade. O Pasquim faz falta.

Mas Leila Diniz, com "tudo aquilo", faz mais falta ainda !

GM

segunda-feira, 20 de junho de 2011

As Divas do Rádio

Essa dica é para quem gosta de história e boa música.

Saiu pela editora Casa da Palavra, o livro “As Divas do Rádio”, um livro muito interessante sobre a era de ouro das rádios brasileiras.

Escrito por Ronaldo Conde Aguiar, que já havia nos dado o belíssimo Almanaque da Rádio nacional, o livro tece de uma forma pitoresca e divertida, um perfil da época mais gloriosa de um formato de mídia, que era até então, o mais importante para a família brasileira.

Devorei o livro neste fim-de-semana, simplesmente não consegui parar de ler!

Num trabalho de pesquisa muito sério, o autor fala das 14 vozes mais populares daquela época, não só num contexto musical ou artístico, mas também revelando interesses sobre o alcance social que as rádios tinham então.

Quem já ouviu um pouco de Dolores Duran, Isaurinha Garcia e Dalva de Oliveira, vai certamente gostar desta viagem.

Recomendo.

GM

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Marisa Monte e a lenda do Profeta Gentileza


Saí de casa cedinho, como de costume. O galo ainda afinava seu canto e meu carro já estava na estrada Itu-Jundiaí.

No digital do relógio do carro, 6h21m. O termômetro marcava 11 graus. Seria certamente mais um dia frio neste quase inverno paulista.

Segui em frente.

Quando liguei o rádio do carro, a voz de Marisa Monte me surpreendeu.

Linda. Uma voz extremamente afinada, num timbre muito suave. Cantava como uma musa, uma princesa, uma gueixa.

O recado era simples: ouvir, relaxar e seguir em frente.

Era o disco “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”, lançado em 2000 e que estava num cantinho do carro, esperando ser tocado.

Comicamente, este disco foi surrupiado de minha cunhada Isa, que se estiver me lendo agora, vai dar por falta deste CD em sua coleção.

Acho que o delito foi cometido quando morávamos ainda em Ribeirão Preto e, numa visita distraída, Isabella deixou o CD em nossa casa e se foi.

Hoje é peça integrante de minha coleção, com direito a plaquinha de patrimônio, e não farei devolução.

De jeito nenhum.

Ocorre que estava então dirigindo o carro e ouvindo o CD, já nos arredores de Jundiaí, quando percebi uma faixa num tom diferente das demais faixas do disco.

Certamente mais uma linda canção de Marisa, mas não apenas isso.

Era a música “Gentileza”. Uma homenagem singela e honesta ao profeta das ruas cariocas, José Datrino, gentilmente conhecido pelo apelido de Profeta Gentileza.

Parece que foi ontem: idos de 1987, eu era aluno da escola militar CPOR, em São Cristóvão/RJ e fazia todos os dias o trajeto que passava pela Avenida Brasil e contornava a zona portuária do Rio, passando por baixo dos viadutos do Caju, da Rodoviária Novo Rio e Leopoldina.

Bairros velhos e históricos.

Naqueles tempos, 24 anos atrás, todos que por ali passavam começaram a perceber algumas mensagens pintadas à tinta branca e colorida nas paredes de muros e nos pilares das pontes.

Com uma caligrafia semi-gótica e estilizada, alguém escrevia mensagens de paz, amor e gentileza.

A mensagem mais escrita e repetida era “Gentileza gera gentileza” e “Amor, palavra que liberta”.

Sempre em letras brancas e com alguma repetição da letra ‘r’, como a reforçar seu sotaque natural.



Isso acontecia em dezenas de muros e pilares de viadutos, repetidamente.

No começo, um mistério: quem seria aquela pessoa que escrevia aquelas belas mensagens ?

Depois, a revelação: era o profeta Gentileza. Um senhor, na época com uns 40 anos de idade, que, em desapego à matéria, começou a vagar pelas ruas do Rio e a escrever nos muros, mensagens de amor e paz.

Fui transferido para Campinas/SP em 1989 e daí pra frente fixei minha vida em SP, deixando pra trás o Rio, a família, os amigos e, também, o profeta Gentileza.

Tempos atrás fiquei sabendo através de meu irmão que as mensagens do Gentileza tinham sido apagadas dos muros.

No seu lugar, uma grossa e fria camada de tinta cinza foi pintada. Verdadeira invasão.

Daí a inspiração para a música de Marisa Monte.

Passados mais alguns anos, me disseram que o profeta havia falecido. Sozinho e desamparado, como se a frieza dos muros onde escrevia tivesse sido mais forte que sua mensagem.

Na época fiquei triste. Quase como quem perde um amigo.

Hoje fui tocado por esta lembrança através da arte e da poesia de Marisa Monte.

Recordei com carinho aqueles dias, quando gentileza era uma palavra, pelo menos, lida todos os dias e o amor, era outra palavra, que quando dita, escrita e repetida, perdoava, aproximava e libertava.

Palavras do profeta Gentileza.

GM

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Boscato, cabernet sauvignon, safra 2007



Eu sei.

Vai parecer incoerência.

Tantos anos defendendo a hegemonia dos malbecs. Tanto tempo dedicado ao cultivo e ao deguste desse nobre tinto, de alma guerreira e sabor único.

Aí, num repente cordelista, publico um post para abraçar apaixonadamente outra garrafa.

Todos sabem que ando muito faceiro, me bandeando para o lado dos tintos brazucas. Não é segredo minha recente incursão nesse mundo, descobrindo muitas qualidades antes encobertas pela névoa do preconceito.

Ocorre que apesar disso, minha preferência sempre foi o bom e velho malbec. O malbecão.

Como os brazucas não são muito atuantes nesta área (uva), sempre acabo me rendendo aos portenhos, sempre disponíveis nas prateleiras do Brasil.

Ontem, porém, algo mudou.

Abri um Boscato, cabernet sauvignon, safra 2007. Gaúcho desde sempre.

Foi uma surpresa pra lá de agradável.

Um legítimo tinto brazuca que já nasceu tradicional.

Sedoso, redondo, encorpado e macio. Frutado no ponto e com um rubi tonal que impressiona pela intensidade.

Harmonize com cafuné e beijo na boca !

Recomendo sem medo de errar, depois vocês me falam se a dica foi boa.

GM

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Era Primavera em Praga, enquanto alguém amava os Beatles e os Rolling Stones


Um menino qualquer.

Que provavelmente nasceu no fim da década de 50 ou início da de 60. Filho de pais que ouviam alguma música.

Algo de Glenn Miller e Count Basie, algo dançante como a boa e velha Tabajara, de Severino Araújo.

Um moleque que se tornou jovem em meio a uma atmosfera diferente, libertária, libertina, deixando o cabelo crescer, frequentando bares e fazendo amor com meninas de saias curtas e pernas bonitas.

Um jovem que viu de longe o homem pousar na lua, as mulheres desnudarem os seios em Woodstock, a guitarra ganhar tons distorcidos nas mãos endiabradas de Hendrix, Page e Clapton.

Aprendeu muito com o que viu nas imagens da TV, do cinema e em coloridas revistas semanais.

Cantou muito do que ouviu nas rádios, nos bares e cabarés.

Um moço como outro igual, sendo por isso mesmo desigualmente único.

Poderia falar inglês, francês, espanhol ou até português. Viveria na América certamente, mas sonharia com os castelos distantes da Europa, envoltos em neblinas e enigmas da história.

Esse jovem certamente se tornaria um adulto, coadjuvando com mudanças políticas, quebras de fronteiras e alterações em mapas e ideologias.

Não esteve em Praga em 1968, mas soube o que aquela primavera representou.

Não esteve em São Francisco e 1969, mas soube bem o que foi o verão do amor.

Não morava em Ipanema em 1962, mas entendeu a grandeza da bossa nova e da poesia de Vinícius.

Esse já, crescido, feito homem, adulto, aprendeu a ouvir a boa música em discos de vinil, que rodavam em Grundigs, Philcos, Telefunkens, GE’s e Sonatas.

Na fuga coerente que o cinema proporcionava, aprendeu a entender Fellini e Godard, Glauber e Antonioni. Provavelmente emocionou-se com eles e depois os esqueceu completamente, abrindo espaço em sua mente para Spielberg, Altman e Coppola.

Sendo um ser humano normal, mergulhou fundo na busca por dinheiro, status e algum poder.

Jogou fora os votos de “não envelhecer jamais”, aprendidos com Janis Joplin e Caetano Veloso.

Seguiu em frente usando terno e gravata.

Esse ser humano, um senhor de meia idade. Hoje teria uma família, alguns filhos ou não, algum grisalho na cabeça, ou não.

Vez por outra tiraria da estante alguns bons discos, de boa música de outras eras. Abriria uma garrafa de vinho e num abraço forte, diria ao filho que vivesse sua vida intensamente, seus dias de hoje, pois o presente é o tempo mais importante e o que conta é o que se faz agora.

Emocionados, com gestos carinhosos trocados entre pai e filho, falariam com alegria das coisas que importam e de como é bom estar em casa, no aconchego, com todos.

Ouviriam boa música e conversariam sobre amenidades divertidas.

Sua vida seguiria assim, como um roteiro a ser escrito e uma estória a ser filmada.

Morreria um dia, este normal homem pequeno, certamente feliz por ter vivido seus dias com alguma dignidade e com muito amor.

Seus filhos ou filhas teriam lembranças alegres dos momentos únicos, das trocas honestas e verdadeiras e se recordariam com carinho das tardes que passavam juntos, sentados no chão, bebendo um bom vinho, sorrindo bastante e ouvindo os Beatles e os Rolling Stones.

GM